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MULHERZINHAS E A IMPORTÂNCIA DE UMA LITERATURA ESCRITA POR MULHERES, SOBRE MULHERES
25/11/2021 16:20 em Mulheres Plurais

 

Em uma geração criada no universo de personagens, como Katniss Everdeen, de Jogos Vorazes, onde sua extrema força e rebeldia desconstroem sistemas vigentes, dizer que Mulherzinhas é uma literatura feminista, pode parecer errôneo. No entanto, pensando em uma época, a qual a literatura extremamente sarcástica e inteligente de Jane Austen era, em sua grande parte, resumida pelo fato de que no fim todas as mulheres casavam “bem”, ou seja, casavam-se com homens ricos. Louisa May Alcott pode vir quebrando diversas barreiras por trazer o mais comum e cotidiano das vidas femininas.

Para entender a obra prima de Louisa May Alcott, é interessante entender também a vida da escritora,  que vem de uma família de transcendentalistas e professores, o que sempre possibilitou que a sua educação fosse vista muito mais do que algo apenas que a fizesse ser mais desejável para obter um marido, pensamento vigente da época,  mas sim como uma forma de independência e valorização de si própria.

Jo, a heroína do livro,  foi uma maneira encontrada pela escritora para falar de si mesma, pois a figura da personagem é moldada a partir do amadurecimento de uma menina comum, e seu enredo cotidiano, a qual não tem como principal destaque sua beleza, algo muito idealizado na época, e até hoje. Além disso, ela também não possuiu muitas condições financeiras ou uma vida extraordinária, e desde cedo teve que sair da escola para ajudar monetariamente em casa, mas que mesmo assim acredita que será capaz de muitos feitos grandiosos.

O romance “Mulherzinhas” dá espaço para o universo de quatro irmãs muito diferentes, mas que mesmo que com cada uma dessas singularidades, ainda se torna possível a identificação com alguma característica delas. Meg, a mais velha, enfrenta muitas dificuldades internas por se considerar pobre, sem os luxos das outras garotas, mas tem como principal característica seu cuidado e amor com sua família. No mesmo ambiente, Jo, a irmã que protagoniza o livro, é ambiciosa, pretende escrever livros grandiosos, viver grandes aventuras e nunca se casar, já Beth é a mais tranquila dentre as irmãs, e é apaixonada por música, mas sofre pelo seu extremo medo de pessoas. Por fim, Amy, a caçula, é a mais ambiciosa, sendo muito dedicada a se tornar uma pintora magnífica, mas que caso não consiga, almeja um casamento rico que a faça participar da sociedade e a possibilite ajudar sua família. Todas elas são retratadas com seus defeitos, qualidades e aprendizados que permeiam suas vidas, sendo elas representações simples e cotidianas, muito diferente da figura feminina idealizada e irreal, presente na maioria dos romances da época e que eram escritos, muitas vezes, por homens.

É importante relembrar que na época, mulheres que passavam tempo demais lendo, eram mal vistas, pois a imaginação ou pensamentos fortes e criativos causados pela leitura poderiam “bagunçar a mente feminina”, como é o exemplo de como era vista Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito. Sendo assim, é possível notar a importância da criação de um espaço de uma literatura feminina cotidiana e representativa, algo iniciado por Jane Austen, a qual inspira muitas das referências presentes na obra de Mulherzinhas, que foi continuado no “Novo Mundo” por Louisa May Alcott, uma escritora sufragista e abolicionista, o que acaba possibilitando que as mulheres finalmente possam ser expressadas, ganhando uma voz por meio das personagens fortes.

Independentemente da moral cristã, que é presente em todo o livro, onde as palavras da narradora muitas vezes oferecem conselhos que podem ser vistos como ultrapassados, o clássico aborda muitos temas atuais, como a possibilidade de ascensão feminina por meio de seus próprios meios, um escancaro as injustiças, desigualdades de classe e outros conflitos cotidianos. O romance começa com as irmãs lamentando por passarem um natal sem presentes, já que estavam em tempos de Guerra Civil, e conforme os anos vão se passando, o leitor consegue enxergar o amadurecimento do romance, a modo de ser possível se espelhar na realidade de cada garota que “aprende a navegar seus barcos pelas dificuldades”. O livro se torna uma ponte de aprendizado, onde meninas têm o tempo de se tornarem mulheres por si próprias e não pelo casamento, ou pela visão social de como elas deveriam ser.

O leitor encontra nas páginas de Mulherzinhas, alento para muitas das suas próprias adversidades. Repleto de sentimentos, dores e vitórias, o romance marca qualquer um que se aventure no universo da tão amável família March, dando oportunidade não apenas para provar uma história deliciosa sobre amadurecimento, mas também possibilitando seu próprio crescimento a partir da leitura do livro.

 

Pela simplicidade e sinceridade da escrita de Louisa, ao terminar o romance, muitos ensinamentos nos acompanham por toda a vida.  Sendo que, é essencial que as garotas vejam na leitura e na escrita, uma oportunidade de tornar o seu cotidiano como uma forma preciosa para a reforma e difusão de pontos de vista capazes de vocalizar seus diversos lugares no mundo.

 

 

 

Por: Luísa Baraldo, estudante do 2º período de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)

 

 

 

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