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Homem negro é espancado até a morte em uma unidade do Carrefour, em Porto Alegre
25/11/2020 16:50 em Dia a Dia

 

João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi brutalmente assassinado por dois seguranças brancos, em uma unidade do supermercado Carrefour, em Porto Alegre, na véspera do Dia da Consciência Negra.

Um homem negro foi espancado até a morte pelos seguranças de uma empresa terceirizada, que trabalhava para o grupo Carrefour, na noite de quinta-feira (19), véspera do Dia da Consciência Negra. As imagens das agressões cruéis foram gravadas e circulam pela internet.

Segundo relatos da esposa da vítima, João Alberto estava fazendo compras juntamente com a mulher, quando teria feito um gesto para a caixa, que imediatamente chamou os seguranças, levando o homem o estacionamento do mercado.

Milena Borges Alves, de 43 anos, a mulher da vítima, contou ainda, que ficou no caixa para pagar as compras, e logo em seguida saiu em busca do marido, quando o viu sendo agredido. Milena relatou que tentou ajudar João Alberto, após um pedido de ajuda do próprio marido, “Milena, me ajuda”, porém, foi empurrada pelos seguranças.

Uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) tentou reanimar o homem depois que ele foi espancado, mas ele morreu no local. Ainda não se sabe qual foi a causa da morte, mas uma análise preliminar da perícia indica que pode ter sido asfixia.

Os dois agressores, um de 24 anos e outro de 30 anos, foram presos em flagrante. Os nomes deles foram divulgados pela Polícia Civil. Sendo Magno Braz Borges, segurança da loja, que está preso em um prédio da Polícia Civil. E Giovani Gaspar da Silva, um policial militar, que foi levado para um presídio militar. De acordo com a Polícia Federal, um deles não possuía o registro nacional para trabalhar na profissão, mas não informou qual dos dois. Ambos os funcionários trabalhavam para uma empresa terceirizada, a Vector Segurança.

O crime está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Porto Alegre, a investigação trata o crime como homicídio qualificado.

 

O que diz o Carrefour

Após o caso vir à tona, o Carrefour decidiu romper o contrato com a empresa de segurança e fechará a loja. Em nota, o mercado informou que "adotará as medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos neste ato criminoso”

"O funcionário que estava no comando da loja no momento do incidente será desligado. Em respeito à vítima, a loja será fechada. Entraremos em contato com a família do senhor João Alberto para dar o suporte necessário", disse a empresa em nota.

O Carrefour informou ainda, que lamente profundamente o caso, e informou que iniciou “rigorosa apuração interna”.

"Para nós, nenhum tipo de violência e intolerância é admissível, e não aceitamos que situações como estas aconteçam. Estamos profundamente consternados com tudo que aconteceu e acompanharemos os desdobramentos do caso, oferecendo todo suporte para as autoridades locais.”

 

Assassinatos de negros aumentaram

Infelizmente, dados divulgados em agosto desse ano pelo Atlas da Violência 2020 indicam que os assassinatos de negros aumentaram 11,5% em dez anos, enquanto os de não negros caíram 12,9% no mesmo período. O relatório também aponta que, em 2018, os negros representaram 75,7% das vítimas de todos os homicídios.

Além disso, casos de agressões a negros ou relatos de racismo em mercados têm sido recorrentes em várias cidades do país.

Em junho, uma jovem negra de 23 anos registrou boletim de ocorrência em Araçatuba (SP) por injúria racial alegando que foi seguida pelo segurança e enforcada pelo gerente de um supermercado. A mulher, que é produtora cultural, gravou vídeos nas redes sociais em que aparece chorando e denunciando o caso.

 

Manifestações 

Um grupo de manifestantes fizeram um protesto na porta de uma unidade do Carrefour, em Brasília. Na capital federal, com cruzes nas mãos, o grupo pediu que os clientes não fizessem compras no supermercado. Além disso, levantavam cartazes com frases como "vidas negras importam".

 Os manifestantes entraram no supermercado por volta das 12h30. Eles gritaram frases como "eu não consigo respirar" – dita por George Floyd, homem negro morto durante uma abordagem policial, em maio, nos Estados Unidos.

 Pela manhã, o mesmo grupo realizou um ato em frente da Fundação Cultural Palmares, no Setor Comercial Sul. De lá, os manifestantes seguiram para o supermercado da quadra 402 Sul.

 Os protestos foram organizados por 25 entidades que envolvem frentes parlamentares, grupos religiosos de matriz africana, movimentos negros e sindicato dos professores do DF.

Dérson Maia, presidente nacional da Frente Favela Brasil, afirmou que a manifestação é para cobrar Justiça. "Nós estamos cansados dessa forma como não só o Estado, mas como as empresas e as instituições de Estado nos tratam. Nós somos a carne barata do mercado", afirmou.

 "Quando aquele senhor [João Alberto Silveira Freitas] morreu, é um pouco de cada um de nós que morreu junto com ele", disse Maia.

 Joseanes Santos, da Frente de Mulheres Negras do DF e Entorno, destaca que o espancamento de João Alberto ocorreu na véspera do Dia da Consciência Negra. "O 20 de novembro, para nós, é sempre um dia de protesto, de lembrar o quanto a desigualdade racial é perversa com a população negra. A morte do 'Beto' aconteceu em um momento para chamar mais atenção de como a cor da pele ainda nos leva à morte", disse.

 

Repercussão nas redes sociais

Esse crime gerou muita repercussão nas redes sociais, principalmente por ter acontecido na véspera do Dia da Consciência Negra, muitas pessoas têm se manifestado em busca de justiça por João Alberto.

 O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes disse: "Na véspera do Dia da Consciência Negra, marcado pelo preconceito racial, o bárbaro homicídio praticado no Carrefour escancara a obrigação de sermos implacáveis no combate ao racismo estrutural, uma das piores chagas da sociedade. Minha solidariedade à família de João Alberto."

 O jogador de futebol, Richarlison Andrade comentou no Twitter: "Parece que a gente não tem saída...Nem no dia da Consciência Negra. Aliás, que consciência? Mataram um homem negro espancado na frente das câmeras. Bateram e filmaram. A violência e o ódio perderam de vez o pudor e a vergonha. George Floyd, João Pedro, Evaldo Santos foram em vão?", citando outras vítimas fatais do racismo.

"Queria poder dizer q é uma grande ironia um preto ser espancado até a morte bem às vésperas do dia da consciência negra, mas não. Até quando vamos ter que lutar pra sobreviver como se não fosse um direito, apesar de todos os nossos deveres? Não há o que celebrar.", disse a cantora Ludmilla em sua rede social.

 

Daisy Silva, aluna do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

 

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